Flavio Cruz

Dilúvio de vento

Alguns dizem que foi maldição, outros que foi castigo, e uns poucos que foi simplesmente um fenômeno da natureza.  O fato é que aconteceu. A pequena cidade se espalhava por uma grande planície, era praticamente um conjunto de propriedades rurais com um pequeno centro. A praça e os pequenos estabelecimentos que vendiam material para pessoas que vivem no campo era o ponto de encontro.
Um dia, era primavera, uma brisa suave e gostosa começou a soprar. Durou umas duas semanas e todos comentavam que aquilo era bom, podia ficar assim para sempre. Mas não ficou, a brisa virou vento. E era daqueles que arrancam chapéu. Não era trágico, mas começava a atrapalhar. As coisas não paravam em pé. Os comerciantes precisavam tirar o que deixavam na frente das lojas, pois a corrente de ar levava tudo. As pessoas começaram a se recolher dentro das casas e só sair em caso de necessidade. Dia e noite aquele som sibilante, quase assustador.
E foi aumentando, aumentando. Não se viam quase pessoas nas ruas. Quem tinha de guiar, precisava ter muito cuidado para corrigir a trajetória do carro, que era afastado por aquele sopro fortíssimo.  E foi aumentando, aumentando.
A essa altura, já estava havendo problemas de suprimentos. Como a maioria eram pequenos fazendeiros e tinham quase tudo em suas próprias casas, conseguiam ir levando.
Os pequenos animais já tinham sido levados. As aves foram as primeiras. Os maiores procuravam não sair dos celeiros, onde haviam se refugiado. O barulho tornou-se, então, terrível, além de ser acompanhado de estrondos de objetos, grandes e pequenos, que estavam sendo levados. Embora poucas pessoas soubessem, pois ninguém saía, vários humanos já haviam sido levados pelo ar em movimento.
As construções mais fracas estavam sendo destruídas e, com elas, seus ocupantes. Chegou a vez das casas maiores e dos celeiros. Aos poucos iam sumindo: primeiro o telhado, depois tudo que havia dentro, incluindo seus habitantes. Eram sugados e levados pela incrível força eólica. Pouca coisa restava. Finalmente, as últimas três construções foram destruídas. A paisagem era um campo vazio, sem plantas, sem nada. Só uma pequena relva, cá e lá, restou.
O vento, então, parou. Quarenta dias haviam se passado. Tinha sido uma espécie de dilúvio de ar.
Desta vez, porém, não havia nem Noé, nem a Arca, só um imenso vazio, que se espalhava até onde alcançava a vista.

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 03.04.2015.

 

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