Flavio Cruz

Salvando as aparências


A cidade ainda tinha aqueles costumes antigos, velhas ideias. Casar virgem era uma das coisas mais importantes. Casar com alguém que compartilha os mesmos valores, igualmente importante. No fundo, era uma forma da elite se manter num círculo fechado, ou, no máximo, deixar entrar alguém só do mesmo nível.
Uma figura diferente era o Lilico. Como posso dizer? Ele não era do tipo machão ou coisa assim. Pelo contrário, estava sempre ligado naquelas coisas em que normalmente os homens de verdade normalmente não estão. Gostava de falar de arranjos, decoração, de penteados, etc. Hoje em dia, ele poderia se abrir, seria mais aceito. Não naquela época. Como diz meu amigo Nino Belvicino, com todo aquele cinismo e deboche, naqueles tempos o fulano precisava ser macho para confessar que não era macho.
Em todo caso, ele era bem recebido junto às mulheres, onde tinha bastante assunto para conversar. Os noivos e namorados obviamente não se importavam pois ele não representava perigo. E a vida foi passando, as moças de família casando com os moços de família, até que quase não havia moça com quem o Lilico pudesse conversar. Foi aí que ele decidiu ir para uma cidade maior, onde poderia se abrir mais, ser mais ele. Com o tempo, as pessoas foram se esquecendo do rapaz. Até que um dia seu nome voltou à tona, de um jeito que nem dava para imaginar. Num dos bailes do clube, o Aquino ficou bêbado. Chegou naquele ponto em que você fala e confessa coisas que não deve. No banheiro, quase caindo, e depois de vomitar à beça, desabafou com o Lima e o Antunes que a Justina não era virgem quando se casaram. Perguntaram, meio rindo, se ele não tinha “aguentado” até a lua de mel. Quase chorando, disse que não tinha sido ele. Alguém tinha dormido com ela algumas vezes antes de eles se casarem. Algumas vezes? Aquilo parecia surreal. Aí ele chorou no ombro do Antunes. Foi aquele – e falou um palavrão – do Lilico. Olhou para seus interlocutores esperando por surpresa. E ela não veio. Parece que aquilo não era estranho para eles também. Acabaram confessando que o Lilico tinha tido seus afazeres com suas esposas antes de eles se casarem, também. Só ali eram três. No dia seguinte, constataram que todos os amigos da roda tinham tido o mesmo destino, o Lilico estava em todas.
Juraram segredo para sempre. Ninguém mais conversaria sobre o assunto, pelo bem da imaculada e tradicional família de Águas Douradas. Dessa forma, nunca ficou muito claro se o Lilico era afeminado, ou até mais que isso. Talvez um “ator”?  A única certeza de que todos tinham era que aquele Lilico era um danado de esperto. Deu uma cambalhota em todo mundo.
Aparências, aparências... todo mundo quer salvá-las.

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 18.06.2015.

 

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