Flavio Cruz

A mulher do advogado

 
O doutor Lins era um excelente advogado e tinha uma excelente mulher. Bom assim, não é? A dona Rita, entretanto, às vezes ficava cismada com a boa sorte que tinha. Afinal o Lins era um maridão e há tanta madame decidida a roubar o que é dos outros...  Tanta mulherada naquele escritório, um advogado bonitão, sei lá...
A Rita não era mulher de ficar sofrendo com coisa que podia resolver. Coisa que não tem jeito, vá lá, o que se há de fazer? Mas saber se o esposo estava aprontando, não era coisa de outro mundo. Olhou na internet e achou um bom investigador, o que é que não se acha por lá? Contratou. Serviço completo. Uma semana com detalhes, minúcias. Chegada e saídas, fotos e filmes. Nomes, sobrenomes, identidade e ocupação.
Não é que o Tenório, o investigador, era bom mesmo! Fez um trabalho espetacular. Tudo, tim- tim por tim-tim. E para usar um termo da lei, o doutor Lins foi absolvido. Era um cara íntegro, pelo menos em relação às mulheres.
Uma semana depois veio a conta. Também tim-tim por tim- tim. Centenas de fotos, uns filminhos, relatórios. Um dos filmes até que foi interessante. O Lins passa em uma banca de flores e compra dois buquês. Um a Rita recebeu e o outro – sinto decepcioná-lo, você, fofoqueiro – ele levou para a mãe. Tudo com ilustração e descrição, além da devida narração.  Ah, estava me esquecendo, estava falando da conta do investigador. Um absurdo, mais do que o próprio Lins cobrava por um de seus casos. Sim, as despesas vieram para o próprio Lins, afinal a Rita não trabalhava e alguém precisava pagar a conta.
Lins passou por vários estágios: surpresa, revolta, indignação contra o investigador, contra a mulher. E por que não dizer? Alívio. Não tinha nada para esconder, mas sabe como é... Um mal- entendido, um ângulo ruim de uma foto. Ele, melhor do que ninguém, sabia disso. Já tinha visto cada coisa nos tribunais...
Ainda assim, pegou o relatório de despesas e foi para casa decidido a tirar satisfações com a Rita. Onde se viu uma coisa dessas? Que absurdo, desconfiar, gastar uma grana à toa e ainda mandar a conta. Só a Rita mesmo...
Enquanto dirigia, advogado que era, ficou imaginando a hipotética cena no tribunal. A acusação contra a Rita, as testemunhas, as provas. Apesar de ser o reclamante, ele tinha de ser também o advogado da Rita, se é que você me entende, além dela não ter renda, ficaria mal a esposa contratar outro advogado... E ele não ia permitir que qualquer advogado da justiça gratuita fosse cuidar de sua própria mulher. Isso não. Começou a defesa em sua mente. Pobre esposa, em casa, sozinha, todas aquelas lindas mulheres desfilando em frente a seu marido. Ela, uma esposa dedicada, amante sequiosa, cheia de dúvidas. Mal ela não fez nada e errado, apenas quis se certificar... Foi bom para todos. Ele provou sua honestidade, ela provou que se interessa por ele, o Tenório faturou uma grana – o desgraçado – e a harmonia está de volta. Que juiz condenaria uma esposa tão zelosa pelo marido?
Decidiu. Deu uma de advogado e juiz ao mesmo tempo. Decretou segredo de justiça, arquivou o processo, pagou as custas e foi para a casa ver a mulher...

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 11.07.2015.

 

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