Flavio Cruz

As águas do rio, o rio das águas

 
 
Foi assim. As lembranças todas, de adulto e de criança, foram desaparecendo. A cabeça, como ele mesmo dizia, não era a mesma. Fatos recentes, ele já não se lembrava de nenhum. Os da fase de adulto, só alguns poucos. Os ruins, más decisões, discussões homéricas, traições, graças ao bom Deus, foram os primeiros a sumir. Os amores da juventude persistiram durante um bom tempo, mas finalmente também se foram.
O que não ia embora, eram as recordações da infância. Nem sequer eram grandes eventos, mas de alguma forma, insistiam em ficar. O aroma de café torrado que vinha da “venda” do tio, na frente da casa, os vidros cheios de balas e também as balas enroladas com um papel e por dentro uma figurinha de jogador para colecionar. E dentro de casa, logo de manhã, o café com leite e aquela nata, que uns detestavam e outros amavam. A manteiga, de verdade, numa peça de louça branca. O pão então... E isso era tudo no começo do dia. E, então, havia aquelas manhãs em que o tio o deixava ir de carona no velho caminhão Ford. Aquele cheiro de gasolina não queimada, tão gostosa. Quem se preocupava com colesterol e com poluição? Havia também o furgãozinho dos doces “Confiança” fazendo entregas. As garrafas de leite deixadas na porta durante a madrugada. Não havia choro nem tristeza. Havia tanta coisa boa.
Mais tarde, durante o dia, havia o rio. Ali perto de casa, tão perto que parecia no fundo do quintal. Caudaloso, poderoso, água verde escuro, corria soberano. E nem era perigoso. Ou era. Não sei o que os pais pensavam. Mas era bonito aquele rio. Dele, ele se lembrava com detalhes.
E, no final, até as lembranças da infância foram sumindo também. Devagarinho, porém, parece que elas não queriam ir embora. A última mesmo, foi a imagem do rio. Na verdade, ela nunca sumiu. Só ela ficou, como se fosse um atestado da vida. Quando ele deu o último suspiro, as águas continuaram a correr. Iam embora, fortes, levando galhos, folhas, tudo. Um rio bonito como nenhum outro. Pomposo, cheio de si. Essa imagem nunca se foi. Nunca. Continuou depois da morte. Aquela corrente forte, poderosa, levando tudo. Ele morreu, mas aquela água permaneceu viva, suntuosa, correndo pela eternidade toda. Continua, continuando. Acho até que seu corpo foi pairando por cima das águas, feliz, sorrindo, olhando para o azul infinito do céu... O céu azul, sem fim, no infinito verde sem fim do rio da vida. Céu azul, rio verde, infinito do céu, infinito das águas, infinito de si mesmo. Foi assim...

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 17.10.2015.

 

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