Flavio Cruz

Ana Lúcia, a menina que conversava com as nuvens

Ana Lúcia, a menina que conversava com as nuvens
 
Mas sempre que a nuvem se alçava de sobre a tenda,
os filhos de Israel partiam; e no lugar em que a nuvem parava,
ali os filhos de Israel se acampavam.
(Números 9: 17)
 
Ana Lúcia acordou um pouco mais tarde. Estava de férias na escolinha e não precisava pular da cama tão cedo. Sentou-se na beirada da cama e com os pezinhos procurou os chinelos com caras de cachorrinho. Esfregou os olhos e abriu a porta do quarto. Foi andando lentamente pelo corredor quando ouviu vozes. Eram quase gritos. Nervosos, raivosos. Meu Deus, será que havia intrusos na casa? Foi então que Ana percebeu que as vozes eram conhecidas. Eram seus pais brigando. Já acontecera antes,mas nunca tão forte assim. Com os dedinhos indicadores tapou os ouvidos, voltou para o quarto e fechou a porta. Pôs um banquinho na janela, subiu com dificudade e pulou para fora. Andou, abriu o portão do quintal e continuou por entre as árvores. Depois havia um descampado. Deitou-se  e olhou para cima. Começou a brincar com as nuvens brancas do céu. Cachorrinhos, um maior, outro menor. Ah, do lado esquerdo havia uma bola. Um menino acabara de aparecer. Veio vindo, veio vindo, queria chutar a bola... Esta, no entanto, se desfez antes de ele chegar. Dali a pouco, o próprio menino virou um balão e coneçou a subir. Onde estavam os cachorrinhos? Ah, haviam se transformado em aviõezinhos e voavam, voavam...
Precisava voltar para casa, a briga deveria ter terminado. Foi pela frente. Quando chegou mais perto, que tristeza, os gritos estavam piores ainda. Mal podia reconhecer as vozes dos pais. Havia outros ruidos também, coisas quebradas. Virou-se rapidamente, tapou os ouvidos e voltou para a relva. Deitou-se. Agora havia só duas nuvens, disformes, uma longe da outra, em dois cantos do céu. Fechou os olhinhos, fez uma força enorme com sua cabecinha até que, devagarinho, muito devagarinho, elas começaram a andar. Enquanto andavam, iam tomando a forma de duas cabeças: uma de homem, outra de uma mulher. Faltava um pouco para elas se tocarem quando subitamente pararam. Ana Lúcia, então, fechou as mãozinhas, apertou os bracinhos contra seu corpo e fez uma uma força enorme com sua cabecinha. Após alguns segundos, os rostos – as nuvens - se tocaram como num beijo. Ana Lúcia então, abriu as mãozinhas, relaxou e suspirou:
-Pronto!
Levantou-se e foi para casa. Agora já não havia mais gritos ou choros. Só suspiros e soluços. Bateu na porta.  A mãe abriu e assustou-se:
-Filhinha, o que você está fazendo aqui fora? O que aconteceu?
Ergueu-a, abraçou-a, beijou-a. O pai também se aproximou e  de repente todos estavam comovidos se abraçando e se beijando. A mãe não conseguia entender o que a filhinha estava fazendo lá fora, mas estava feliz agora porque a briga com o marido havia terminado. Haviam se entendido, tudo estava em paz.
Ana Lúcia pensou em contar tudo para eles. Depois desistiu.
Afinal, eles não entenderiam. Eles não sabiam como conversar com as nuvens.

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 08.09.2016.

 

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