Flavio Cruz

Um pastor chamado Mateus

 

Mateus era seu nome. Nome de apóstolo, predestinado? Pelo menos era o que seu pai achava. Cresceu, estudou um pouco, não muito, conheceu a bíblia, tornou-se pastor. Igreja não muito grande. Pastor daqueles que não falam muito de dinheiro, mas sim da palavra.

Era querido, tinha voz bonita e forte, parecia perto de Deus. Naquela semana, porém, parecia não estar bem. Talvez estivesse preocupado com o aluguel do prédio da igreja - ainda não tinha conseguido sede própria – e da própria casa, também alugada. Com a desculpa de estar doente, não fez o culto da quarta, mas havia garantia de que o de domingo pela manhã era coisa certa.

Certo sim, lá estava ele, às dez em ponto. O pequeno coral cantou um lindo hino, “Quão grande és tu”. Pareciam ter vozes de anjos aquelas meninas! Fez-se então um silêncio e o pastor Mateus, talvez fosse Matheus o nome certo, caminhou até o púlpito. Limpou a garganta, abriu o livro sagrado em uma página indeterminada e anunciou:

-Falei com Deus!

Um murmúrio espalhou-se pela igreja. Ele não era de falar assim. Ele estava certamente se referindo a uma conversa verdadeira, não simbólica. Mateus não era de exagerar nos vocábulos. E daí continuou:

-Ele me disse que Ele não existe!

Aquilo foi uma bomba, uma bomba silenciosa! Comentários a meia voz, suspiros, sustos contidos. Certamente não era aquilo que tinham ouvido. Ou o que tinham ouvido não era aquilo. Todo mundo então parou e esperou pela explicação. Tinha de haver uma, por Deus do céu, tinha!

Que nada! Essas foram as últimas palavras dele ouvidas naquela comunidade, naquele bairro. Desceu os dois degraus do púlpito e sumiu pela porta lateral que dava para seu pequeno escritório. Ninguém foi atrás, nem adiantaria. Seu carro já sumia na curva quando os primeiros fieis saíram da igreja à sua procura. O Júnior, que pela primeira vez comparecia ao culto, talvez tenha sido o único que falou algo com sentido:

-O que ele quis dizer foi que o deus que não existe é aquele de barbas, vingativo, punitivo, que gosta de dinheiro. O Deus de verdade existe sim!

Mas ninguém prestou atenção. Era muita comoção. O fato é que nunca mais alguém ouviu falar do Mateus.

Fique registrado aqui que ele não só deixou pagos os alugueis, como também as multas por rescisão de contrato.

 

Todos los derechos pertenecen a su autor. Ha sido publicado en e-Stories.org a solicitud de Flavio Cruz.
Publicado en e-Stories.org el 03.01.2018.

 

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